Sindijufe - MT

Congresso discute diminuir carga horária de trabalho no Brasil, que está acima da média mundial

Média do país é de 39 horas semanais; segundo a Organização Internacional do Trabalho, total no mundo é, em média, de 38,2

  • BRASÍLIA | Emerson Fonseca Fraga, do R7, em Brasília

Já pensou trabalhar 36 horas por semana? O Congresso Nacional discute uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que define essa como a jornada máxima do trabalhador brasileiro, que hoje é de 44 horas semanais. A carga horária atual é maior do que a média mundial, de 38,2 horas, segundo revela a OIT (Organização Internacional do Trabalho).

Os parlamentares brasileiros também avaliam a possibilidade de redução de carga horária sem redução salarial mediante acordo entre empregados e patrões. Ambas as propostas devem estar na pauta de discussão dos parlamentares no ano legislativo de 2024, que começa nesta quinta-feira (1º).

No mundo, o país com maior carga horária semanal média é o Butão, com 54,4 horas semanais — mais de 9 horas por dia, 6 dias por semana. O Brasil tem carga horária média de 39 horas. A menor média é de Vanuatu, na Oceania, que tem jornada média de 24,7 horas semanais — pouco mais de 4 horas, se considerada uma semana de trabalho de 6 dias. Confira no gráfico abaixo a média trabalhada por país:

País

Butão

Emirados Árabes Unidos

Catar

Índia

China

Colômbia

Turquia

México

Peru

África do Sul

Angola

Cuba

Chile

Rússia

Brasil

Venezuela

Coreia do Sul

Israel

MÉDIA MUNDIAL

Portugal

Estados Unidos

Uruguai

Argentina

Espanha

Japão

Islândia

Itália

França

Reino Unido

Suíça

Irlanda

Luxemburgo

Suécia

Bélgica

Finlândia

Alemanha

Dinamarca

Noruega

Áustria

Nova Zelândia

Austrália

Canadá

Etiópia

Países Baixos

Vanuatu

Jornada (em horas)

.

54,4

50,9

48

46,7

46,1

44,2

43,9

43,7

43,1

42,6

41,4

41

40,4

39,2

39

38,7

38,6

38,5

38,2

38,2

38

37,3

37

36,7

36,6

36,3

36,3

35,9

35,9

35,7

35,6

35,6

35,3

35

34,4

34,2

33,9

33,7

33,3

33

32,3

32,1

31,9

31,6

24,7

Luce Costa/Arte R7

País Jornada média semanal por trabalhador (em horas)
Butão 54,4
Emirados Árabes Unidos 50,9
Catar 48
Índia 46,7
China 46,1
Colômbia 44,2
Turquia 43,9
México 43,7
Peru 43,1
África do Sul 42,6
Angola 41,4
Cuba 41
Chile 40,4
Rússia 39,2
Brasil 39
Venezuela 38,7
Coreia do Sul 38,6
Israel 38,5
MÉDIA MUNDIAL 38,2
Portugal 38,2
Estados Unidos 38
Uruguai 37,3
Argentina 37
Espanha 36,7
Japão 36,6
Islândia 36,3
Itália 36,3
França 35,9
Reino Unido 35,9
Suíça 35,7
Irlanda 35,6
Luxemburgo 35,6
Suécia 35,3
Bélgica 35
Finlândia 34,4
Alemanha 34,2
Dinamarca 33,9
Noruega 33,7
Áustria 33,3
Nova Zelândia 33
Austrália 32,3
Canadá 32,1
Etiópia 31,9
Países Baixos 31,6
Vanuatu 24,7
Tabela de dados do gráfico

JORNADA SEMANAL MÉDIA

DE TRABALHO POR PAÍS

Fonte: OIT (Organização Internacional do Trabalho)

Entenda o projeto de lei

O projeto de lei, de autoria do senador Weverton (PDT-MA), voltou a ganhar destaque depois que empresas brasileiras aderiram a um experimento internacional que testa o modelo de quatro dias de trabalho por semana. Nesse caso, o desafio é diminuir a carga dos colaboradores e manter a produtividade. As empresas que aderiram aos testes receberam treinamentos, palestras, diagnóstico organizacional das equipes e acompanhamento individualizado.

O texto, aprovado pela Comissão de Assuntos Sociais do Senado, visa fixar em 14 horas por semana o intervalo disponível para negociação entre empregador, empregado e sindicato, por meio de convenções coletivas. Essa negociação é condicionada à preservação dos salários atuais. Dessa forma, o total de horas trabalhadas poderia ser ajustado para até 30 horas semanais.

Como houve recurso para apreciação em plenário, agora o texto será votado por todos os senadores. Se aprovado, segue para a Câmara dos Deputados.

Entenda a PEC das 36 horas semanais

A PEC que reduz a carga horária máxima para 36 horas semanais foi apresentada há 25 anos pelo então deputado Paulo Paim (PT-RS), hoje senador. Outra proposta está em tramitação na Câmara dos Deputados, apresentada pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) em 2019.

Ambos os textos preveem que a Constituição seria alterada para reduzir a jornada de trabalho sem prejuízo do salário. Diferentemente do projeto que está no Senado, no entanto, a versão da Câmara impõe um prazo de dez anos para a novidade ser colocada em prática.

As propostas são amparadas por um estudo do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), que afirma que a redução da jornada para 40 horas semanais geraria mais de 3 milhões de novos postos de trabalho. Em um segundo momento, com a diminuição para 36 horas semanais, aproximadamente 6 milhões de empregos seriam criados, segundo a pesquisa.

Questão jurídica

Para o advogado e mestre em direito do trabalho Hugo Fidelis, no caso de uma redução geral, “o ideal é que o Estado regulamente o tema já com uma regra de transição, possibilitando novos contratos com novos salários, se o caso, para jornadas menores”.

Segundo o jurista, uma emenda à Constituição pode, sem qualquer empecilho, diminuir a jornada máxima de trabalho caso seja aprovada pela Câmara e pelo Senado. Já na hipótese de ser possível a redução da carga horária por acordo, Fidelis lembra que só é possível se não houver prejuízo financeiro ao empregado.

É ilegal qualquer alteração contratual prejudicial ao trabalhador. Nesses casos, o cabível é a redução da jornada, mantido o salário, considerada alteração benéfica.

HUGO FIDELIS, ADVOGADO E MESTRE EM DIREITO DO TRABALHO

A tendência internacional, entretanto, é de redução, segundo o especialista, até em razão da tecnologia. “Hoje, nos concentramos menos e temos mais eficiência com apoio de instrumentos tecnológicos. De outro lado, também em razão dessa tecnologia, vários postos de empregos são extintos”, pondera Fidelis.

“Além disso, há uma visão geral de utilização do trabalho como meio e não como fim, de modo que as pessoas têm buscado postos de trabalho com maior flexibilidade e menores cargas horárias, de modo a poder equilibrar com o tempo dedicado a outras áreas da vida. Tudo isso contribui para uma verdadeira tendência internacional de redução de jornadas máximas de trabalho”, afirma.

Viés econômico

Para o economista e mestre em finanças Cesar Bergo, “a redução da carga horária não é uma moda, é uma necessidade”. Para ele, a questão tem implicações na saúde dos trabalhadores.

No mundo inteiro já existem estudos que apontam os impactos, inclusive, na saúde das pessoas que têm longas jornadas de trabalho. Isso provoca uma sobrecarga no sistema de saúde.

CESAR BERGO, ECONOMISTA E MESTRE EM FINANÇAS

“Economicamente, agora o país está numa situação tocante ao mercado de trabalho atrasada. Então, vai ser uma medida que gerará grandes impactos, porque temos aqui no país situações que nem hora extra o trabalhador recebe”, ponderou.

Por outro lado, segundo o especialista, “se você vai perder horas de trabalho, você pode propiciar também novas oportunidades de emprego e também não tenha dúvida que a melhoria da produtividade pode levar a empresa a ser mais lucrativa”.

Para Bergo, a pandemia de Covid-19 fez o tema precisar ser discutido. “Temos no home office, por exemplo, situações em que a empresa acaba economizando em várias questões da estrutura, porque as pessoas vão para casa, utilizam tudo em casa, e a empresa economiza energia, água etc.”

Setor produtivo

Em nota, a CNI (Confederação Nacional da Indústria) se posicionou contra a alteração obrigatória da jornada máxima, mas a favor da possibilidade de negociação entre trabalhadores e patrões para diminuir as horas de trabalho semanais.

Uma eventual imposição por lei de limite inferior a 44 horas para o trabalho semanal não só enfraquece o processo de diálogo entre empregadores e empregados, como desconsidera as variadas realidades em que operam os setores da economia, os segmentos dentro da indústria, o tamanho das empresas e as disparidades regionais existentes no país.

CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA (CNI), EM NOTA

“Uma eventual redução obrigatória, estabelecida por lei, deve produzir efeitos negativos no mercado de trabalho e na capacidade das empresas de competir, sobretudo, aquelas de micro e pequeno porte”, argumenta.

“Para a CNI, a negociação coletiva é o melhor caminho para que empresas e trabalhadores encontrem as soluções em acordo com as respectivas realidades econômicas e produtivas”, completa o texto.

Procuradas pela reportagem, a CNC (Confederação Nacional do Comércio) e a CNA (Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária) não quiseram comentar o tema.

R7

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pesquisa

Pesquisar

Acesso restristo

Área Restrita

Seja membro

Filie-se

Categoria