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Vacina contra covid-19 para crianças no Brasil pode ficar para 2022

Apesar de bons resultados em outros países, o imunizante ainda enfrenta percalços aqui; saiba os motivos e expectativas

 (crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

(crédito: Ed Alves/CB/D.A Press)

De acordo com o governo federal, o Brasil tem hoje mais de 90% da população adulta parcialmente vacinada contra a covid-19. Com quase nove meses desde o início da vacinação contra o vírus, a imunização no país também chegou aos adolescentes. O plano de imunização, entretanto, ainda não abrange as crianças, que continuam à espera de chegar sua vez. A pergunta é: ainda vai demorar muito?

Em alguns países próximos ao Brasil a espera dos pequenos já acabou. O Chile, por exemplo, deu início à vacinação com a Coronavac em crianças entre 6 e 12 anos na primeira quinzena de setembro. A vez chegou quatro meses após a faixa etária de 12 a 17 anos, que teve permissão para vacinar com o imunizante da Pfizer em maio.

A Argentina também demonstra agilidade no plano de vacinação contra o coronavírus e já chegou à menor faixa: o governo do país anunciou, no último dia 1°, a aprovação do uso da Sinopharm, vacina chinesa, na imunização de crianças de 3 a 11 anos. Os hermanos já vacinam adolescentes de 12 a 17 anos contra o vírus com o imunizante da Moderna desde o início de agosto.

Nos Estados Unidos, a Pfizer pediu, na última quinta-feira (7/10), autorização para o uso emergencial da vacina contra a covid em crianças de 5 a 11 anos. Ao FDA, órgão regulador no país, a empresa farmacêutica assegurou que o imunizante é seguro à faixa etária. “Desde julho, casos pediátricos de covid-19 aumentaram em cerca de 240% nos Estados Unidos, enfatizando a necessidade de saúde pública de vacinação”, justificou o presidente executivo da Pfizer, Albert Bourla, em comunicado à imprensa.

Em estudo divulgado em 20 de setembro, a Pfizer e a BioNTech afirmaram que a vacina teve uma boa resposta em crianças pequenas nas fases 2 e 3 do ensaio clínico feito, com resultado equivalente a pessoas de 16 a 25 anos. O estudo foi realizado com 4,5 mil crianças entre seis meses e 11 anos nos Estados Unidos, Finlândia, Polônia e Espanha. Os resultados da faixa etária de seis meses até 5 anos devem ser divulgados ainda neste ano.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o uso da Pfizer em adolescentes acima dos 12 — com e sem comorbidade — em junho. Mas, na prática, a faixa etária só começou a ser vacinada em agosto. Até o momento, o governo federal não divulgou previsão oficial de data para vacinação em pessoas com idade menor que esta faixa etária.

O que falta, então?

O principal obstáculo, que impede a imunização de crianças daqui, é a falta de autorização, cedida pela Anvisa. Um pedido para uso da Coronavac em 3 a 17 anos foi feito pelo Instituto Butantan em agosto — entretanto, rejeitado. Segundo a reguladora, a instituição não apresentou todas as informações necessárias para o aval, que só pode ser dado mediante documentações que comprovem a eficácia e segurança do imunizante para a faixa etária.

“Os dados de imunogenicidade deixam incertezas sobre a duração da proteção conferida pelo imunizante”, informou a Anvisa em nota. O Butantan deverá submeter uma nova solicitação com mais informações à agência.

Ao Correio, a Anvisa apontou, também, que as pesquisas feitas pelo instituto científico em crianças foram realizadas com um baixo número de participantes, o que comprometeu os resultados: “Os estudos apresentados foram conduzidos com número limitado de pessoas que estatisticamente não permitem concluir sobre a segurança e eficácia específica para este grupo etário.”

E completou: “Com as informações apresentadas pelo Butantan no pedido em questão, não foi possível concluir sobre a eficácia e a segurança da vacina nessa faixa etária. Os dados de imunogenicidade deixam incertezas sobre a duração da proteção conferida pelo imunizante.”

Com os bons resultados obtidos, a expectativa é de que a Pfizer e a BioNTech também peçam autorização da Anvisa para vacinar crianças no Brasil. Entretanto, até o momento, a reguladora do país informou que nenhuma solicitação foi feita pelos laboratórios. “A Anvisa só pode iniciar sua avaliação a partir do momento em que recebe o pedido e dados obrigatórios”, ressaltou.

“A solicitação para inclusão de nova faixa etária deve ser feita pelo laboratório farmacêutico. Para isso, devem apresentar estudos e evidências científicas que sustentem a indicação em termos de segurança e eficácia para a nova faixa etária”, salientou a agência.

Expectativa para 2022

Para o médico infectologista do Hospital das Forças Armadas (HFA), Emerson Luiz, as chances de crianças entre 5 e 11 anos começarem a ser vacinadas no Brasil, ainda este ano, são muito baixas. Segundo o especialista, as doses estão sendo priorizadas para outros públicos no momento: “Dificilmente essa faixa etária [entre 5 e 11 anos] conseguirá ser vacinada contra o vírus em 2021. Ainda estamos utilizando a vacina da Pfizer em adolescentes, na dose de reforço, em idosos, em imunossuprimidos e em profissionais de saúde. Além daqueles que já tomaram a primeira dose e necessitam tomar a segunda — que muitos lugares estão antecipando.”

A previsão feita pelo infectologista está de acordo com a expectativa do Ministério da Saúde. Em coletiva de imprensa, na última sexta (8/10), o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, informou que o órgão planeja vacinar crianças pequenas contra a covid em 2022, mas depende da autorização da Anvisa.

De acordo com o ministro, na campanha de imunização do próximo ano serão priorizadas compras da Pfizer e da Astrazeneca, já que são as únicas com aval da Anvisa para uso definitivo. A previsão é que sejam utilizadas cerca de 340 milhões de doses para todo o público brasileiro.

Em resposta ao Correio, o Ministério reforçou o discurso de Queiroga. “Dependemos da autorização da Anvisa para tomarmos providências sobre os assuntos”.

Pelas crianças e pelo coletivo

Médica intensivista atuante no hospital Santa Marta, Adele Vasconcelos ressalta que as crianças são grandes transmissores da covid-19, e que a vacinação desse público é importante para frear o avanço do vírus em todas as idades: “A questão da vacinação para crianças é uma questão epidemiológica: evitar a transmissão que ainda está muito alta. A transmissividade ainda está alta mesmo com a vacinação, então a intenção é vacinar as crianças, que são os maiores transmissores.”

Segundo a intensivista, casos de coronavírus graves em crianças são mais raros. “As crianças geralmente são assintomáticas”, afirma. Os casos existentes podem ser minimizados com os imunizantes, que, para a médica, não apresentam riscos em relação à falta de segurança. “O que precisamos melhorar ainda é o potencial que essas vacinas têm para o controle da transmissividade.”

Já a infectologista Valéria Paes, do hospital Sírio Libanês, diz ter uma expectativa muito grande para a faixa etária de 5 a 11 anos. Ela salienta que crianças pequenas têm mais dificuldade de entender a importância do cumprimento das medidas de biossegurança: “Estamos falando neste momento sobre volta às aulas e conter a disseminação do vírus, nesse contexto é muito difícil principalmente por serem crianças.” Para a médica, a imunização dos pequenos “é importante tanto para a proteção das crianças quanto para a proteção do coletivo”.

Paes também acredita que os imunizantes serão seguros para crianças com menos de 12 anos, já que foram poucos os episódios de reações graves aos imunizantes até o momento. “Mesmo nos adultos e adolescentes, os efeitos colaterais ocorreram, mas foram raros. Ocorreu uma inflamação no músculo cardíaco, a miocardite, mas, mesmo nestes casos, houve uma evolução passageira e benigna.” Para a especialista, as crianças também devem apresentar bons resultados: “Eu acredito que isso não vai atrapalhar a vacinação na faixa etária infantil. Não deixamos de vacinar os adolescentes e adultos por causa dos efeitos, os benefícios foram maiores que os riscos.”

Insuficiência de doses

Mesmo com a possibilidade de autorização da Anvisa para uso de imunizantes em crianças ainda este ano, a falta de doses em alguns lugares do Brasil pode ser um problema. É o que está acontecendo, por exemplo, no Distrito Federal, com a vacinação de adolescentes de 12 a 17 anos.

A capital brasileira, que abriu a campanha de vacinação contra a covid-19 para a faixa etária em setembro, já não tem mais estoque da Pfizer e estão sendo administradas somente doses que sobraram nas unidades de saúde. A informação foi confirmada pela Secretaria de Estado de Saúde (SES/DF), em coletiva de imprensa na última quarta-feira (6/10). As regiões administrativas de Brazlândia e Ceilândia são as mais prejudicadas pela falta de imunizantes e chegaram a suspender as aplicações da primeira dose aos menores de idade.

“Não há mais vacinas da Pfizer na Rede de Frio para primeira dose do grupo de 12 a 17 anos. Entretanto, a vacinação dos adolescentes de 12 a 17 anos acontece normalmente com as doses que já foram distribuídas aos pontos de vacinação”, disse a SES/DF à reportagem. “Até o momento, não há previsão da chegada de novas doses de vacina e de vacinação para pessoas com menos de 12 anos.”

Mesmo sem doses, o DF já conseguiu imunizar parcialmente 70,5% dos adolescentes contra a covid-19. A expectativa é de que, quando começar a ser adotada, a vacinação em crianças pequenas também avance rápido. Por enquanto, a Secretaria de Saúde recomenda, tanto aos pais quanto às crianças, que realmente sigam as medidas de proteção individual já amplamente divulgadas: uso de máscara (boca e nariz), higienização frequente das mãos (água e sabão ou álcool 70%) e evitar aglomerações (distanciamento mínimo de 2m entre as pessoas).

Correio Braziliense

 

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